Friday, 20 May 2011

Jenny Schecter

"Estou sentada numa cadeira, contorcendo-me em agonia. Um pequeno demônio está a espetar-me, da-me cabo da cabeça.
Abraxas, ele diz. Eu sou Abraxas. O demônio das mentiras e decepções.
'Então... O que quer saber a respeito das mentiras, minha querida?'
Eu não sou uma mentirosa. Tento levantar-me novamente, e agora estou esfolada, exposta. Dou comigo a gritar.
'Eu digo-te sobre mentiras. Há mentiras brancas e mentiras negras, e muitos tons de mentiras cinzas. Mas algumas mentiras são justificáveis. Mentiras ditas por bondade, mentiras para preservar a dignidade. Mentiras que simplificam a dor. Todos são mentirosos, querida.
Olhe aquilo acontecer. Ela está prestes a contar à amante algo claramente falso. Olhe seus gestos e como elas se tocam íntimamente. Como evitam os olhares e cobrem as suas bocas. Elas lambem os dentes e seguram os queixos. Embelezam suas histórias com detalhes a mais..."

Monday, 16 May 2011

Incertezas Me Consomem.

Talvez eu tenha errado. Talvez eu tenha pecado ao abrir a porta e simplesmente tê-lo puxado para dentro. Ter me encantado por seus olhos e me alegrado ao som de sua risada, absoluto em minha necessidade e sincero ao constatar que o amava. Talvez eu devesse fechar meus olhos e ignorar a sua lembrança, trancar meu coração, mas apenas depois de arrancá-lo para fora. Isto se agora eu o tivesse comigo, mas creio que há tempos ele já não me pertence mais. E engana-se quem pensa que o coração é em seu total indispensável; além de suas funções fisiológicas, de nada lhe serve mais. Talvez eu não devesse tê-lo cedido tão facilmente, talvez eu devesse ter lutado contra o que vem me consumindo impiedosamente a cada novo suspiro. Talvez eu devesse apenas ter negado seus olhares e não procurado por seus braços. Talvez eu devesse me privar dessa necessidade e fingir que seu rosto não é a última coisa que vejo antes de cair no sono e a primeira ao acordar. Não deveria ser. Aliás, não deve ser. É errado, e para alguns, pode ser julgado até mesmo um pecado. Talvez eu esteja assinando a minha sentença no inferno, mas talvez eu não me importe realmente com isso. Talvez eu esteja tão malditamente apaixonado por meus erros, que não queira mais acertar. Errar contigo é tão prazeroso quanto padecer eternamente no paraíso, porque pouco me importa o que virá depois da morte, você tem minha vida nas mãos, e eu tenho o paraíso entre meus braços. Talvez eu tenha uma nova concepção de certo e errado, talvez eu tenha um instinto apurado. Talvez eu esteja apenas envolvido demais em cada pequeno detalhe, que o resto do mundo se torne indiferente. Talvez pecar seja tão natural quanto o ar que circula a nossa volta. Talvez amar você seja tão natural quanto absorvê-lo. Talvez eu devesse parar. Talvez não. Talvez eu devesse mentir. Talvez eu devesse desistir. Talvez eu devesse apenas amá-lo e me contentar em vê-lo feliz. Talvez não, talvez sim.

Wednesday, 27 April 2011

Metáforas

Eu quero que você entenda que nós sempre tivemos muito de tudo, pouco de nada. Nós não tínhamos a paz que todos os casais tem, mas nós tínhamos mais amor do que muitos por aí. Que nós éramos felizes e por mais que as brigas fossem maiores, os cochilos com você nos meus braços faziam de nós um casal perdoado.
Não quero que fique aí me olhando como quem espera alguma coisa, eu quero que faça alguma coisa. Eu quero que levante dessa cadeira e atravesse o quarto, que atravesse minhas roupas e minha pele. Quero que entenda que isso vai além de mim, de você e de qualquer um de nós.
Nunca esperei flores na cama, chocolates por lágrimas ou anéis por meses. Nunca esperei beijos molhados de tristeza ou abraços vazios de raiva.
A gente deu muita risada juntos, a gente segurou nossas mãos, prometendo juntar nossos corações, a gente cantou no meio da avenida e brigou embaixo da ponte. A gente fez todos os passos possíveis dentro de um relacionamento.
Mas a gente também esqueceu que tem que dar alguns passos pra trás de vez em quando, pra poder ver o futuro com mais clareza, pra poder viver sem medo do erro. A gente aprendeu e agora a gente segue, eu pro sul, você pro norte, como a gente sempre planejou.
Talvez um dia eu segure sua mão e nunca mais a solte, mas por ora, eu deixo que os dedos de outro alguém se entrelace nos meus.